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  • Foto do escritorDiacuy Mesquita

Quando eu precisei você não estava lá.



Eu estava tão feliz, porque logo, logo, ele estaria aqui.

Contava com você para fazer os pratos que ele gostava, cuidar da roupa dele, deixar a cama limpa e perfumada para quando ele deitasse se sentisse muito amado.

Você lembra que quando eles chegavam da escola, você fazia questão de ter a mesa pronta e tempo disponível para recebê-los? Ah eu gostava de como isso fazia diferença para eles.

Quando eu o vi saindo daquele túnel do tempo e espera, chamado área de desembarque, naquele aeroporto tumultuado de gente e emoções, vi uma pessoa que não me pertencia mais, outro corte de cabelo, outro corpo, mais magro, roupas modernas, no estilo 16º "arrodissement" em Paris, pensei: Ele partiu pra sempre, mas ainda bem que teria você ao meu lado, foi quando olhei para os lados e constatei que você não estava lá, você também foi embora para sempre? Só sei que agora eu, que dei contorno a vida dele, o acompanho de fora, como testemunha distante. Não participo mais do seu trabalho, mas se você estivesse aqui, pediria pra ver as notas do orientador, talvez fizesse o pedido ridículo de conversar com o mestre para ver como andava a vida acadêmica dele, nessa hora não posso negar que dei graças a Deus por sua ausência.

Ele chegou mais perto e me abraçou e foi o mesmo abraço de sempre, sabe aquele abraço gostoso, que ele dava em você? Isso não mudou porém, me veio a dúvida: Será que ainda temos algo em comum? Será que aqueles mesmos interesses que ele partilhava com você ainda existem? Talvez, graças a ele que você não se resignou a sua idade, ele te carregava para a juventude dele, te fazia escutar bandas Indies, te apresentou ao mundo dos quadrinhos com temática política, enfim a presença dele agitada e inventiva enchia sua casa. Você se lembra disso?

Ah tantas lembranças comoventes, perturbadoras e deliciosas!

Tentei fazer suas receitas que ele adorava, não tive o mesmo resultado. Esqueci tudo que você me ensinou? Ou simplesmente o paladar dele mudou? Eu mudei? O tempo fez com que eu esquecesse de você? Confesso que hoje me acho muito mais intelectualizada, interessante, com outros arroubos que você, talvez a gente nem tenha nada mais em comum a não ser a saudade e carinho do tempo vivido, a maternidade solitária, a vida em outros países, outras culturas, não vou negar que dou umas risadas gostosas quando me lembro das suas tentativas toscas de falar outra língua, sinceramente? Me acho muito mais descolada que você, me desculpe a arrogância.

Enfim escrevo para te contar como foi a visita do nosso menino parisiense, te agradecer e dizer que você foi a mãe que conseguiu ser com a bagagem que você tinha na época, se eu pudesse te dar um conselho, diria para você não sofrer tanto, tudo se ajeita e a vida dá um jeito para que as coisas prossigam da melhor maneira possível, quer saber?

Te perdôo e tenho o maior carinho e amor por você: A mãe que eu fui.





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4 commenti


Claudia Getschko
Claudia Getschko
24 feb

Meus olhos se encheram de lágrimas...de amor

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Diacuy Mesquita
Diacuy Mesquita
24 feb
Risposta a

Ahhhh amiga! ❤️

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Jana Arruda
Jana Arruda
24 feb

Quanto sentimento... Quanta verdade... <3

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Diacuy Mesquita
Diacuy Mesquita
24 feb
Risposta a

Mães

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